É apenas um morador de rua. Quem liga?

Morador de Rua mPlantão passado operamos esse homem, vítima da violência em que vivemos. Morador de rua, foi atingido no rosto por um facão em um golpe proferido por outra pessoa, outro ser humano, que tentava acertar seu cachorro. Isso mesmo, um ser humano tentava matar o cachorro do morador de rua que, por instinto, colocou-se entre seu cachorro e o facão para protegê-lo. Teve metade do rosto decepado. O nariz e o lábio superior ficaram pendurados por apenas um pedaço de músculo. Graças a Deus o atendemos em tempo de minimizar os danos e o risco de morte. O paciente passa bem e já se encontra em condição de alta hospitalar.

Desde que iniciei minha vida profissional em prontos-socorros públicos, há mais de 15 anos, algo me chamava  a atenção em relação aos moradores de rua. Muitas vezes via um ou outro entrando no pronto-socorro apenas para tomar banho e conseguir um prato de comida. Eu podia notar que aquele ser, morador de rua, sujo, com mau cheiro, com trapos cobrindo seu corpo ao invés de roupas, muitas vezes descalço, às vezes de chinelo, com os pés tão sujos que não dava nem para ver a cor da pele, unhas grandes, barba e cabelo grandes, sem brilho, com os fios grudados pela sujeira, os poucos dentes que sobravam na boca eram quase sempre todos estragados, esse ser humano que é quase sempre ignorado pela a sociedade, onde a maioria das pessoas atravessa a rua trocando de calçada, para não passar perto dele, quando chega ao pronto-socorro público é atendido como um cidadão. Passei então a enxergar o Pronto-Socorro público não apenas como um lugar que chegam doentes, mas sim como um lugar que chegam todos e quaisquer seres humanos. Inclusive moradores de rua, que quase sempre a sociedade esquece que ele também é um ser humano. Às vezes até ele mesmo esquece que é ser humano, vivendo em condições sub-humanas. Vejamos o que significa sub-humano no dicionário:  que está abaixo do que se considera humano. Ou seja, não humano, e se não é humano, é bicho!

Quando atendemos esse tipo de paciente, somos gratificados duas vezes, uma por atender e tratar a aflição da dor naquele momento como todos os outros pacientes, e outra por devolvê-lo a condição de humano, de lembrá-lo que ele é muito mais do que um morador de rua, lembrá-lo de que realmente é um ser humano! Assim ele é tratado por toda a equipe, até receber alta hospitalar, em condições muito melhores do que quando entrou, de banho tomado, barba feita, roupas  e tênis que as voluntárias sempre conseguem. Bem alimentado, bem nutrido, bem cuidado pela equipe de enfermagem, pelas nutricionistas do hospital, fisioterapeutas, enfim, é muito gratificante vê-lo ir embora do hospital não como um bicho em condições sub-humanas e sim como um ser humano!

Lembro-me de uma passagem da minha infância que faz uma ligação direta com o meu presente, aliás, devo muito do que sou hoje aos meus pais, que ensinaram a mim e minhas irmãs e fizeram questão de nos mostrar todas as facetas da vida, desde muito pequenos. Nós costumávamos ir até a Igreja das Almas, aqui em São Paulo, um sábado por mês. Na frente da igreja há uma escadaria e, naquela época, década de 80, muitos moradores de rua ficavam por lá. Nós acordávamos por volta das 3 horas da madrugada e, na cozinha de nosso apartamento começávamos a fazer lanches. Era pão de forma, com margarina, queijo e presunto. Embrulhávamos um a um em papel alumínio e depois colocávamos de volta nos mesmo saco que vinha o pão de forma. Enquanto isso meus pais iam preparando as garrafas térmicas, umas com café e leite e outras com café puro. Enchíamos o porta-malas do carro e saíamos próximo as 5:30 da manhã rumo à igreja. Lá distribuíamos os lanches e café com leite e garantíamos o café da manhã daqueles seres, ao menos uma manhã por mês. O que fazíamos era muito pouco perto de todas suas necessidades, mas fazíamos de coração e recebíamos em troca sorrisos de afeto e agradecimento.  Certa vez, num desses sábados, minha mãe me perdeu de vista entre as pessoas e desesperadamente começou a me procurar, quando finalmente me achou estava eu sentado no colo de uma das moradoras de rua papeando e comendo com ela sua marmita!

E você, será que ao passar por aquele morador de rua, que sempre está no seu caminho, perto da sua casa, perto do seu trabalho, será que você percebe a presença dele? Já olhou em seus olhos? Às vezes ele te olha apenas pensando em receber um bom dia! Já percebeu como é desagradável quando estamos no elevador e alguma pessoa entra e não nos olha nos olhos e muito menos nos oferece um bom dia?

Somos nós, e apenas nós, que podemos mudar o mundo em que vivemos, que podemos melhorar as relações interpessoais, que podemos tornar a vida mais leve e o mundo melhor. Tenho certeza que, assim como eu, você também quer essa transformação!

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Muito obrigado e um forte abraço do amigo,

Christiano Cony

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