Presto serviços em um hospital. O foco é Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, ou seja, atendimento de traumas de face, infecções, patologias entre outros. Há exatamente uma semana atrás, me ligou o Dr. X (assim o chamarei por ser o pivô dessa situação que irei relatar) da Secretaria de Saúde, pedindo gentilmente se poderíamos operar um paciente de 13 anos, com paralisia cerebral e autismo, que estava com alguns dentes comprometidos lhe causando dores terríveis há algum tempo. A necessidade do atendimento hospitalar ocorre por precisar realizar os procedimentos sob anestesia geral, pois esse paciente não tem condições de ser tratado acordado. Na hora me prontifiquei a ajudar o paciente e assenti. Pedi então que me encaminhasse o paciente para que eu pudesse avaliar. O Dr. X relatou que eu não precisava me preocupar porque outro já havia avaliado (o tal do Dr. Malfeitor). Então lhe pedi desculpas e lhe disse que se o paciente não fosse avaliado por mim, eu não iria operá-lo, qualquer um que trabalha assumindo responsabilidade com pacientes sabe que ninguém indica um procedimento sem fazer uma avaliação, isso é óbvio até para o leigo. Aqui começam os absurdos dessa história.
Quando assumi essa postura, o Dr. X me falou que o Dr. Malfeitor iria fazer a sedação do paciente para eu operar. Disse que o Dr. Malfeitor é médico e cirurgião-dentista, que fez curso nos Estados Unidos, que foi professor universitário, que tem muita experiência com isso e mais alguns elogios. Respondi que era ótimo poder trabalhar com tão alto nível profissional, mas que não me levasse a mal, se eu fosse cuidar do paciente, podia o Papa ter avaliado o paciente, que mesmo assim eu também o avaliaria podendo indicar ou não o procedimento. Assim terminamos o primeiro capítulo dessa novela com o Dr. X dizendo que o Dr. Malfeitor iria me ligar. Três dias depois encaminhei uma mensagem para o Dr. X dizendo que ainda não havia recebido a ligação e que eu estava ficando preocupado porque, se o paciente estava em sofrimento por dor, o tempo estava passando sem a devida resolução do seu problema. Recebi a ligação do Dr. Malfeitor no dia seguinte.
O Dr. Malfeitor iniciou a ligação se apresentando e fez o seguinte comentário: – o Dr. X me falou que você (eu) está receoso para operar o paciente, o que está acontecendo? Nem preciso dizer que nessa hora meu sangue ferveu, mas me segurei e mantive o controle. – Não colega, sabe o que é, eu preciso avaliar o paciente antes de indicar uma cirurgia, preciso saber se está tudo bem, se tem indicação cirúrgica e se vamos colocá-lo na mesa (centro cirúrgico). Nessa hora ele disse que não iria por o paciente na mesa, que iria fazer isso com sedação na sala de emergência do pronto-socorro, que ele fez muitas vezes assim e que dava tudo certo. Informei-lhe que eu não iria fazer isso na sala de emergência por ter ambiente com melhor controle asséptico (contra infecção), que não havia necessidade de realizar isso nesse ambiente, pois tínhamos disponível ambiente mais indicado e que eu também não faria isso com o paciente sedado, sem controle das vias aéreas. O risco de se fazer um procedimento desse com o paciente sedado é o fato dele perder o reflexo de deglutição e tosse e, pelo fato de estarmos operando a boca, ou seja, com sangue na cavidade bucal, a qualquer momento o paciente pode aspirar (ir sangue para o pulmão) e colocar em risco sua vida. Há inclusive uma frase na anestesiologia que todos os anestesistas levam consigo: é mil vezes preferível uma anestesia (geral) leve do que uma sedação profunda! O Dr. Malfeitor ficou bravo e desligou o telefone.
Conversei novamente com o Dr. X, por telefone, e combinei de me encaminhar o paciente na segunda-feira, com todos os exames pré-operatórios e de imagem, para que eu avaliasse. Quando iniciei a consulta, para minha surpresa, não havia nenhum exame com o paciente. Liguei na hora para o Dr. X que me disse que os exames estavam na Secretaria de Saúde e que se eu pudesse esperar até o almoço ele me levaria. Nem preciso dizer que eu não podia esperar, né? Pedi para o paciente esperar na sala de espera, peguei meu carro e fui até a Secretaria de Saúde pegar os exames. Chegando fui recebido pelo Dr. X que começou a procurar os exames e foi logo me pedindo desculpas, mas só estava com a radiografia do paciente e que os outros exames estavam com o Dr. Malfeitor. Nesse momento lhe disse que o Dr. Malfeitor não precisava mais ir ao hospital, que eu iria solicitar anestesista da equipe para anestesiar o paciente, que tudo estava muito complicado e que a falta de respeito comigo e com o próprio paciente já havia passado dos limites. Ele me pediu, mais uma vez desculpas, mas o Dr. Malfeitor gostaria de continuar conduzindo o caso porque já tinha se comprometido com a família. Consenti mais uma vez, na tentativa de ainda manter a situação amigável, mas que o Dr. X falasse com o Dr. Malfeitor que iríamos fazer o procedimento no centro cirúrgico e sob anestesia geral. Ele disse para eu ficar tranquilo que tudo ocorreria dessa forma. Voltei para o hospital, preenchi o aviso de cirurgia no centro cirúrgico agendando-a para o dia seguinte, orientei o paciente e deixei pronta toda papelada para a internação.
Cheguei ao hospital cinco minutos antes do horário agendado, passei na enfermaria para ver o paciente e ele não estava lá. Perguntei ao pessoal da enfermagem e disseram que não haviam chamado do centro cirúrgico, achei estranho. Antes de ir para o centro cirúrgico fui ao pronto-socorro para avaliar um paciente que me aguardava e encontro o paciente sendo direcionado para a sala de emergência. Quando me aproximei veio a mim o Dr. Malfeitor se apresentando. Eu lhe disse que o centro cirúrgico já iria chamar o paciente. Nesse momento o Dr. Malfeitor começou a aumentar o tom de voz, no meio do corredor do pronto-socorro, na frente de vários outros pacientes, dos profissionais que lá trabalhavam. Disse que era um absurdo eu querer fazer isso no centro cirúrgico, que ele já fez varias vezes em sala de emergência, que fazia isso em consultório. Eu disse que não tem sentido fazer isso em uma sala contaminada e por o paciente em risco, sem proteção das vias aéreas. Perguntei-lhe o porquê dele não querer fazer no centro cirúrgico e ele me respondeu que não era anestesista, mas que foi professor universitário. Pedi que ele tivesse um pouco mais de educação e respeito por todos que estavam ali e que fossemos conversar em uma sala, ele virou as costas pra mim, falou pra mãe do paciente que eu era um péssimo profissional e foi embora. Pedi para mãe que tivesse um pouco de paciência, lhes encaminhei para enfermaria e disse que eu iria ver como conseguiríamos resolver a situação do seu filho, o paciente com dor!
Liguei para o Dr. X, pivô dessa história toda e quem insistiu para a situação chegar aonde chegou. Chamava e caia na caixa postal. Depois de insistir algumas vezes recebi uma mensagem informando que não podia falar naquele momento e que mais tarde me ligava. Estou esperando até agora. Isso era 13h30m. Fui falar com a anestesista para anestesiar o paciente, afinal ele estava em jejum desde as 5h:30m, aguardando a cirurgia, a mãe conseguiu folga no serviço para acompanhar o filho e eu não queria que eles fossem embora sem o problema resolvido. A Dra. tinha mais três anestesias para fazer e, após essas, faria a do nosso paciente, previsto para as 18h:00m. Aproveitei para ir almoçar. Quando retornei fui checar os exames do paciente, mas os mesmos não estavam lá, o Dr. Malfeitor levou embora! Fui conversar com a mãe que me falou que o RX de Tórax havia sido feito no hospital e que os outros exames ela havia tirado cópia de entregado na clínica que acompanha o paciente. Fui ao setor de radiologia do hospital para saber se eles ainda tinham a imagem da radiografia, para nossa sorte ainda estava lá. Depois corri na administração e pedi um endereço de email, pois a clínica escaneou os exames para encaminhá-los. Às 17h55m os exames chegaram no email da administração, imprimimos e fomos, finalmente para o centro cirúrgico cuidar do paciente. Terminamos a cirurgia às 19h15m, preenchemos a papelada, o paciente acordou super bem da anestesia e, após conversar com os familiares, às 19h:40m fui embora.
Como toda situação negativa sempre tem um lado positivo, voltei para casa pensando em tudo isso e agora agradeço ao Dr. Malfeitor ter agido dessa forma. Provavelmente, se tivesse realizado a cirurgia com ele, o resultado teria sido catastrófico, o paciente poderia estar em uma situação muito ruim e eu não iria me perdoar por ter aceitado isso. Não falo por estar acreditando no além ou em uma força sobrenatural (mesmo eu acreditando nisso), mas com toda essa história, todos os fatos e provas, a chance disso ter acontecido era muito grande, enorme!
E aí, concorda comigo que chamar esse sujeito de Dr. Malfeitor é super sutil?
Christiano Cony
Curta, comente, compartilhe: www.facebook.com/blogdocony