Uma de minhas atividades laborais é o atendimento de pacientes politraumatizados em ambiente intra-hospitalar. Desde o ano 2000, há mais de 14 anos, atuo na área da Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial. A Traumatologia, área que mais gosto, é exercida eminentemente em Pronto-Socorro atendendo pacientes vítimas dos mais variados traumas: motoristas, passageiros e pedestres envolvidos em acidentes de trânsito, quedas de bicicleta, skate, socos e pontapés em artes marciais, futebol, basquete e outros acidentes desportivos, quedas de escada, de laje e da própria altura, entre outros acidentes domésticos, vítimas de violência urbana como baleados, esfaqueados, espancados e por aí vai. A vítima chega ao Pronto-Socorro das mais variadas formas, algumas vezes vem trazida por familiares e amigos, outras vezes sozinha e, quando há maior gravidade no local do acidente, profissionais são acionados, através de uma central, para irem até o local prestar o primeiro atendimento à vítima e removê-la para o hospital. Esse tipo de atendimento é chamado de Pré-Hospitalar. Em nosso país, quem desempenha esse papel, na maior parte das vezes, é o Corpo de Bombeiros. Existem outras instituições que também prestam esse serviço como o SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), Resgates de rodovias sob concessão, entre outros. Mas é o Corpo de Bombeiros que faz essa interface conosco em mais de 95% dos casos de atendimento Pré-Hospitalar quando se trata de trauma. Eles chegam com o paciente passam o caso nos dando algumas informações de como foi o acidente, como a vítima foi encontrada, que condições, informam alguns sinais clínicos como frequência cardíaca, respiratória, quais lesões foram visualizadas, entre várias outras informações que forem necessárias. A vítima vem deitada sobre uma prancha rígida, com colar cervical e imobilizada para evitar maiores danos caso haja trauma raquimedular (coluna), com compressas se houver sangramentos, com imobilizações em membros se for o caso, entre outros procedimentos que necessitarem utilizar para minimizar os danos do trauma ou mesmo manter a vitima em condições de vida até o inicio do atendimento intra-hospitalar, onde haverá mais condições de atendimento com equipe composta de diversas especialidades de trauma, exames avançados, centro cirúrgico preparado para iniciar a qualquer momento uma cirurgia de emergência entre outras ações que se pode utilizar para salvar a vida de alguém.
Nesse final de semana estava em uma festa de aniversário de uma amiga. Próximo às duas horas da manhã do domingo, em um movimento mal executado na escada de sua casa, a própria aniversariante tropeço e despencou de uma altura próxima a dois metros. Ao ouvir os gemidos, rapidamente cheguei ao local. Ela estava deita, reclamando de dor na cabeça e ombro direito e uma poça de sangue se formava ao redor de sua cabeça. Rapidamente fiz o que havia de ser feito, nada demais, apenas procedimentos simples baseados em um protocolo norte americano chamado BLS, Basic Life Support, conhecido por nós como primeiros socorros. Esse protocolo nada mais é do que um atendimento sistematizado do politraumatizado que qualquer pessoa pode facilmente aplicar, não precisa ser profissional de saúde, basta ser treinado para isso. Esse atendimento pode fazer toda a diferença entre a vítima sobreviver ou morrer! Em alguns países as pessoas são treinadas para isso desde a infância na escola. Fiz contato com o Corpo de Bombeiros através do telefone 193 (tenha esse telefone anotado, a qualquer momento poderá ser útil) e em menos de 10 minutos a Unidade de Resgate (UR) chegou ao local. Rapidamente, com muita destreza e uma capacidade profissional admirável, conduziram a vítima ao interior da UR e passaram o caso para Central a fim de saber para onde a vítima deveria ser conduzida. Esse passo é extremamente necessário, pois existem diferentes complexidades e necessidades nos diferentes traumas. Essa orientação da Central informará qual hospital a vítima deverá ser encaminhada para ter o melhor atendimento dentro das necessidades específicas. Saímos em direção ao Pronto-Socorro indicado pela Central que, por acaso, era onde eu trabalhava também. Chamou-me a atenção o carinho do bombeiro com a vítima, durante todo o percurso ele foi acalmando a vítima, não protocolarmente, mas com carinho que vinha do coração. Chegando, passou o caso para o cirurgião geral de plantão e saíram para mais um atendimento Pré-Hospitalar.
Por trabalhar constantemente com eles, nessa interface, sempre elogiei e admirei o trabalho desses profissionais. Após estar envolvido, diretamente, desde o início quando liguei para acioná-los, até o final do atendimento quando da passagem do caso no pronto-socorro, reafirmo, com mais precisão e convicção, que essa corporação deve ser motivo de orgulho para toda nação brasileira.
Deixo aqui o meu agradecimento a essa Corporação e o reconhecimento de que, enquanto esses anjos anônimos estiverem nas ruas, haverá esperança as vidas reais!
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