MORADORES DE RUA – A IMPOTÊNCIA FRENTE AO SOFRIMENTO HUMANO

(Texto publicado no Facebook dia 01/01/2017)

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Primeiro de janeiro de 2017, primeiro dia do ano. Um momento de esperança, de novos tempos, de tempos melhores, melhores no amor e melhores na dor.

Deixamos nosso carro com ar condicionado no estacionamento, caminhávamos para o prédio, para o apartamento, com camas confortáveis, comida, mesa, talheres, banheiro com chuveiro, com água quente, enfim com o conforto mínimo para uma vida comum. A base da pirâmide das necessidades de Maslow.

Engraçado como as coisas acontecem na vida, hoje eu e a Deboracaminhávamos na orla e conversávamos sobre as pessoas em situação de rua, discutíamos possíveis soluções para políticas públicas, íamos melhorando nossas propostas, como se realmente pudéssemos propor isso ao parlamento ou ao executivo, sempre temos essas discussões e são sempre sérias e saudáveis, mas acabam sempre ficando na vontade e acabamos voltando para a realidade.

Nesse pequeno trajeto entre o estacionamento e nosso prédio tem uma marquise, passamos distraídos, mas um som nos chamou a atenção, era um gemido, um gemido de dor. Voltamos alguns passos e vimos um casal, a moça deitada e encolhida gemendo de dor e o rapaz ao seu lado, ajoelhado, tentando lhe consolar. Um outro rapaz estava em pé e notamos que se tratava de um morador do prédio a frente que viu a cena e desceu para prestar auxilio. O companheiro nos disse que ela estava com dor a alguns dias e que também não estava se alimentando. Vimos que ela estava extremamente magra, pele e osso, talvez uns 30, certamente não mais que 40 quilos. Ainda segundo o companheiro ela está no terceiro mês de gestação.

Eles têm um colchão, um cobertor, alguns trapos que chamam de roupas, uma garrafa com água e um ao outro. Eles não tem o mínimo para a vida humana! Até quando essas situações serão invisíveis aos nossos olhos? Até quando vamos acreditar que a vida é assim mesmo? Que não é problema nosso?

Não tínhamos muito o que fazer a não ser acionar o atendimento pré-hospitalar. Ligamos para o SAMU e caiu na base de Santos, o atendente me informou o telefone da base de São Vicente. Ao ligar para o número informado a atendente Cristiane informou que só havia uma ambulância atendendo o município de São Vicente inteiro, que haviam outras chamadas e que faria o possível para agilizar o atendimento. Foi muito simpática e lamentou estarem operando com apenas uma ambulância, concordei com ela e fizemos votos para que o prefeito que assumiu hoje pudesse melhor a condição do atendimento de saúde e de tantas outras demandas esquecidas pela gestão anterior. Liguei para o COPOM e expliquei a situação, o cabo que me atendeu também foi extremamente simpático e me informou que acionaria o Corpo de Bombeiros.

Aguardamos uns 10 minutos e cogitávamos colocar o casal em nosso carro para levá-los ao pronto-socorro quando chegou a ambulância do SAMU. Rapidamente prestaram socorro e colocaram a paciente na ambulância. No mesmo momento recebi o telefonema do Corpo de Bombeiros para explicar a situação, informei que o SAMU já estava prestando atendimento e agradeci o retorno. Pedi autorização para fazer essa foto para agradecê-los publicamente.

Os profissionais de saúde trabalham em condição precárias. O que presenciamos hoje foi diversos atores do atendimento pré-hospitalar se mobilizando para poder prestar o devido atendimento. SAMU, COPOM e Corpo de Bombeiros, muito obrigado!

Finalizamos com um sorriso no rosto, não pelo que fizemos, porque temos certeza que não fizemos nada além da nossa obrigação, mas por essa moça poder receber esse cuidado, pelo comprometimento desses profissionais e pela certeza de que Deus sempre está a operar no bem!

Boa noite amigos…